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Bem-estar

Dignidade

Será a criatividade finita? Quando criamos não temos idade. Sentimo-nos jovens, energéticos e, ao mesmo tempo, maduros e experientes. A arte não tem prazo de validade. Os artistas têm o privilégio de poder manter a sua atividade até muito tarde. Talvez tenham que abrandar, mas não precisam de parar completamente. Uma mente criativa não pode, pura e simplesmente, encerrar só porque a idade da reforma chegou. A arte leva uma vida inteira a descobrir, a aprender. Só numa idade maior os artistas estarão no seu apogeu, no domínio mais apurado das suas capacidades. Também é um facto que, por vezes, a necessidade financeira prolonga a atividade profissional. Especialmente no nosso país, onde a cultura é considerada um bem de quinta necessidade e, por conseguinte, o apoio aos mais velhos é nulo.
Leio muitas vezes nas redes sociais, onde as pessoas expressam as suas opiniões sem pudores, que os artistas em final de carreira têm o que merecem. Não descontaram para a Segurança Social, ganharam muito e gastaram tudo, etc., etc. Nada mais falso. Poderá haver um ou outro caso em que isso aconteceu, mas na sua maioria, os artistas são cidadãos como os outros. Pagam os seus impostos como toda a gente. Com a agravante de terem uma profissão precária e desregulada, onde a gestão dos seus cachets tem de ser feita com contenção e inteligência. Não há nada mais triste do que ver artistas que tiveram tudo – aplausos, consagração, carinho do seu público e amor – chegarem ao terceiro ato das suas vidas e verem-se abandonados, esquecidos, entregues à sua sorte. 
Assisti, como espetadora, à criação da Casa do Artista, há cerca de 20 anos. Dois artistas, e pessoas de grande dimensão, Armando Cortês e Raul Solnado, tiveram um sonho e lutaram para o concretizar. Apesar da situação em relação aos artistas mais velhos pouco ou nada ter evoluído no que diz respeito aos apoios estatais, hoje a dignidade deles está salvaguardada através da sua casa, onde, para além de uma residência, têm cuidados médicos, fisioterapia, ginásio, cabeleireiro, exposições, teatro e outras atividades culturais porque, como disse Armando Cortês, “aqui é proibido envelhecer”.
O meu aplauso para todos que levam esta tarefa gigantesca para a frente, graciosamente, e, por vezes, com sacrifício da sua vida pessoal. Bravo!

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Bem-vindos à Casa do Artista! 🎭

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Fotografia de capa Victoria Pickering

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